Por Reinaldo Bezerra Feitosa
Fundador da SLT Consult | Estrategista Tributário
Nos últimos meses, acompanhei de perto algo que me preocupa mais do que qualquer
portaria do Comitê Gestor.
Empresas que cumpriram o checklist da transição ponto a ponto. Que atualizaram o ERP.
Que homologaram a nota fiscal. Que treinaram o time fiscal. Que fizeram, em 2026,
exatamente o que o Comitê Gestor pediu que fizessem. E ainda assim, estão se preparando
para tropeçar em 2027.
Na prática, esse tropeço futuro já tem sinais hoje, e eles quase nunca aparecem como erro
de sistema. Aparecem como cClassTrib parametrizado pelo fiscal sem que compras saiba o
que aquela mudança fará no custo do fornecedor em 2027. Aparecem como cadastros
tributários revisados em silos, sem ninguém cruzar o efeito no preço, no estoque ou na
margem. Aparecem como decisões sendo tomadas área por área, com cada uma
cumprindo a sua parte da norma, sem que ninguém olhe para o impacto que esses ajustes
terão no caixa quando a alíquota cheia entrar em vigor.
É a velha cultura brasileira de esperar o evento acontecer para reagir. Só que, na Reforma
Tributária, quem esperar 2027 para descobrir o tamanho do impacto vai descobrir com o
caixa, não com o sistema.
A pergunta que ninguém está fazendo é: por quê?
A resposta não está nos sistemas. Está nas pessoas. E na forma como elas se comunicam,
ou deixam de se comunicar, dentro das organizações.
O erro mais caro da transição não é técnico
Quando a Reforma chegou, a maioria das empresas fez o movimento natural: direcionou a
pauta para a área de tecnologia e disse: “resolve.”
Faz sentido. O ERP precisava ser atualizado. Os campos do XML da nota fiscal precisavam
ser parametrizados. O motor de cálculo precisava suportar IBS e CBS simultaneamente com
os tributos antigos. São demandas técnicas legítimas, e a área de tecnologia é a mais
equipada para tratá-las.
O problema é que a Reforma Tributária não é um problema de tecnologia.
É um problema que passa por tecnologia. Assim como passa por compras, por financeiro,
por precificação, por marketing e por RH. Ela não aterra em um departamento. Ela
atravessa a empresa inteira. E quando cada área enxerga apenas o próprio pedaço, o
resultado é exatamente o que temos visto: adaptações técnicas corretas que não se
traduzem em operação segura.
Pense no que acontece na prática. O split payment vai mudar o timing do caixa em 2027. A
liderança financeira já está envolvida o suficiente para rever a política de capital de giro, ou
só vai entrar na conversa quando o aperto chegar? O cClassTrib altera a tributação de
dezenas de SKUs já neste ano-teste. O time de compras sabe que o custo efetivo de alguns
fornecedores muda, e que isso vai impactar precificação em 2027? O fisco passou a cruzar
dados em tempo real. Controladoria e fiscal estão falando a mesma língua no fechamento
desde já, ou ainda operam em registros separados?
Quando a resposta para essas perguntas é não, o ERP mais moderno do mercado não
resolve.
A dicotomia que estamos vendo nas empresas
Há um padrão que se repete. Chamo de dicotomia interdepartamental: cada área
entende a reforma pelo filtro da própria responsabilidade, e ninguém tem visão do
conjunto.
O fiscal olha para obrigação acessória. O financeiro olha para fluxo de caixa. A tecnologia
olha para sistema. O jurídico olha para risco. O comercial olha para margem. Todos estão
certos dentro do próprio recorte. E todos estão incompletos.
A Reforma exige resposta sistêmica. Ela não pode ser gerenciada em silos, nem mesmo em
silos estratégicos.
É exatamente para evitar esse tipo de risco que cito o caso de um grupo varejista que
assessoramos ainda neste ano-teste, no desenho da transição para 2027. O ponto cego era
claro: ninguém havia dimensionado o efeito da retenção da CBS, que passa a operar em
alíquota cheia a partir de 2027, sobre o caixa da operação. 2026 é o ano-teste, de
parametrização e ajuste de sistemas conforme as normas do Comitê Gestor. Mas o impacto
financeiro real chegaria no ano seguinte, e era exatamente em 2026 que o planejamento
orçamentário precisava ser feito.
Sentamos com os times internos e cruzamos o que cada área já tinha, mas ninguém tinha
junto. Olhamos para o mix de produtos e o efeito do cClassTrib na margem. Olhamos para o
prazo médio de pagamento a fornecedores. Olhamos para o giro de estoque. Cada um
desses dados morava em uma área diferente. E era exatamente esse o problema.
O resultado da simulação foi um número que mudou a conversa: a operação precisaria de
uma Necessidade de Capital de Giro adicional de 2,75% do faturamento, em um setor que
opera com margens líquidas muitas vezes próximas a esse mesmo patamar. Sem esse
caixa, a operação não fechava.
Esse tipo de número não aparece em planilha de obrigação acessória. Aparece quando
alguém senta com fiscal, financeiro, compras e controladoria ao mesmo tempo, e olha para
a operação inteira.
A partir desse número, a pergunta na empresa deixou de ser “o sistema está pronto?” e
passou a ser outra, muito mais incômoda: como renegociar prazos com fornecedores antes
que o caixa aperte? Como revisar preços sem corroer margem? Como reorganizar compras
e estoque para entrar em 2027 com a operação calibrada? Nenhuma dessas decisões
pertence ao TI. Nenhuma pertence só ao fiscal. São decisões de empresa, e empresas só
tomam boas decisões quando a cultura permite integração.
Foi a partir daí que projetamos com os departamentos as ações de 2026 para entrar em
2027 com a operação no lugar: revisão da política de preços, renegociação de prazos com
fornecedores e reorganização do calendário de compras. Cada uma dessas decisões
precisava acontecer em mais de uma área ao mesmo tempo, e nenhuma podia esperar o
ano-teste terminar para aparecer.
Se essas áreas não tivessem sentado na mesma mesa em 2026, o problema só apareceria
no susto em 2027. E a essa altura, já teria virado custo financeiro, não decisão estratégica.
Esse é o ponto que muda tudo: uma empresa pode estar tecnicamente adaptada à Reforma
e, ainda assim, despreparada para ela. Adaptação é o ERP atualizado, a nota homologada, o
cadastro revisado. Preparação é saber quem decide quando a regra muda, e quem precisa
estar na sala antes que a decisão aconteça.
A Reforma Tributária, com sua exigência de apuração transacional e conformidade em
tempo real, funciona como um acelerador desse tipo de risco. Ela expõe mais cedo, e mais
duramente, quem opera com departamentos em silos.
A reforma que ninguém está vendo
Muito se fala sobre a reforma tributária, a reforma financeira, a reforma tecnológica. São
reais e importantes.
Mas existe uma reforma que quase ninguém vê, e que talvez seja a mais difícil de
implementar: a reforma cultural.
Cultura não se parametriza no ERP. Não se resolve com uma portaria. Não se homologa em
ambiente de testes.
O que vemos nas empresas brasileiras, nesses últimos meses, é uma cultura corporativa
que terceiriza responsabilidade técnica. Joga para o TI o que é da empresa inteira. Joga
para o fiscal o que é do CFO. Joga para o consultor externo o que é da liderança. É uma
cultura que opera por reação, não por antecipação. Que trata informação tributária como
burocracia de fechamento, não como ativo estratégico de decisão.
Cultura, nesse contexto, é o que se omite quando ninguém é responsabilizado por integrar.
É o que se permite quando cada área se protege dentro do próprio recorte. É o que se
naturaliza quando informação fiscal vira pasta de fechamento, e não dado de decisão.
Processo sem cultura é parametrização. Cultura sem processo é discurso. A Reforma exige
os dois, na ordem certa: cultura primeiro, processo depois.
Empresas que estão navegando bem por esse mar revolto têm algo em comum: criaram
espaços de decisão integrada. Não necessariamente comitês formais. Às vezes é uma rotina
de alinhamento semanal entre fiscal, financeiro e operações. O formato varia. O resultado é
o mesmo: quando uma mudança chega, todo mundo está na mesma página.
O papel do Estrategista Tributário nesse contexto
A contabilidade sempre teve um DNA específico: enxergar a empresa de forma transversal.
Receita, custo, margem, fluxo, obrigação. O Estrategista Tributário é o único profissional
que, por formação e experiência, tem visão integrada de todas essas dimensões ao mesmo
tempo.
Esse DNA nunca foi tão necessário quanto agora.
O papel do Estrategista Tributário nesse momento não é apenas garantir conformidade
técnica. É atuar como catalisador da comunicação interdepartamental que a Reforma
exige. É sentar na mesma mesa com a liderança executiva da empresa, traduzindo o
impacto real de cada mudança normativa em decisão de negócio.
É o profissional que, quando o CFO pergunta “quanto isso vai custar?”, consegue responder
traduzindo norma em caixa, sem precisar de três reuniões para chegar lá.
É sair do backstage e assumir o protagonismo que a contabilidade sempre teve condição de
ter. E que a Reforma Tributária tornou incontornável.
A pergunta que vale mais do que qualquer portaria
Antes de revisar o ERP, antes de mapear o cClassTrib, antes de simular o impacto do split
payment no fluxo de caixa, faça uma pergunta simples à sua organização:
Quando chega uma mudança da Reforma, quem decide? E todos os que precisam ser
informados são informados antes ou depois da decisão?
Se a resposta for “depois”, ou pior, “depende de quem percebe primeiro”, o risco não está
no sistema. Está na cultura.
E essa palavra, cultura, talvez seja a mais usada e a menos entendida dentro das empresas
brasileiras.
Porque quando a alíquota cheia entrar em vigor, em 2027, atraso de comunicação vai virar
erro de preço. Erro de preço vai virar perda de margem. Perda de margem vai virar pressão
no caixa. E pressão no caixa, no fim, vai virar decisão estratégica tomada no susto.
Por isso, depois de tudo, é preciso dizer com todas as letras o que estamos chamando de
cultura.
Cultura, na Reforma Tributária, não é valor de parede nem slogan de código de ética. É o
que a sua empresa faz sem precisar de portaria. É a decisão que acontece antes do
problema, e não depois dele. É quem é chamado para a sala quando o Comitê Gestor
publica uma nota técnica. É quem tem autoridade para parar uma negociação com
fornecedor por motivo fiscal. É em quanto tempo uma mudança de cClassTrib chega ao
time de precificação.
É o que separa a empresa que se adapta da empresa que se ajusta.
Não se compra. Não se contrata. Não se baixa em PDF. Constrói-se, e essa construção é a
verdadeira reforma.
E esse é o risco que nenhuma atualização de software resolve.
Porque o sistema pode calcular o imposto. Só a cultura decide o que a empresa faz com
essa informação.
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Reinaldo Bezerra Feitosa é fundador da SLT Consult e Estrategista Tributário.
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